A mulher e o gato

março 14, 2016


Tinha sido um dia quente, mas a tarde trouxe uma brisa amena, que produzia um leve balançar nas folhas miúdas das árvores da rua. Uma nuvem cinza cobria parte do céu, embora o azul ainda reinasse por quase todo lado. Encostado na tela de proteção do nono andar, o gato observava a vida do alto com os olhos semicerrados. Sua pelagem reluzia quando os raios de sol a tocava. Ele não saiu dessa posição nem quando a porta do quarto que dá acesso à varanda abriu de súbito.

Nina entrou afobada, descalçou os sapatos, trocou de roupa e se jogou na cama, ainda maquiada. Pegou o celular na bolsa e segurou o aparelho por alguns minutos, como se esperasse algo ou hesitasse em fazer alguma ligação ou enviar alguma mensagem. Por fim, escolheu uma música, colocou o aparelho de lado, fechou os olhos e, ao som tranquilo da canção que escolhera, conseguir relaxar por vários minutos. Pensou no caos do caminho de volta para casa, na raiva que ela sentia em ver tanta gente de um lado para o outro, como se todos atrapalhassem o seu caminho.

Quando voltou a abrir os olhos, notou que o sol já tinha ido embora. Nina comparou esse breve crepúsculo à sua vida. No momento em que ela se dava conta de que algo bom estava acontecendo, se distraía e ele passava diante dos seus olhos, como num passe de mágico e a ela só restava o vislumbre do que ocorrera. Nina alimentava a sua felicidade apenas de memórias.

Livre da sua divagação, ela voltou a pegar o celular que a essa altura já tocava uma música cuja sonoridade a desacomodava, porque não combinava com o seu momento de reflexão. Foi então que notou o gato sentado na varanda. Há quanto tempo ele estava naquela posição? Ela se perguntou, mas não saberia responder. Foi até lá e suavemente passou os dedos sobre o seu pelo macio. O gato apenas virou a cabeça levemente e, tão logo seus olhos com grandes pupilas verticais dilatadas reconheceram a sua dona, ele retomou a sua posição inicial.

Nina surpreendeu-se com a tranquilidade do animal e pensou que também gostaria de ter essa mesma resiliência. Assim, mesmo com fome, ela recostou-se do lado do bichano e, como ele, começou a observar o mundo à sua volta.

Nove andares abaixo deles a rua estava agitada. Havia luzes por toda a parte: faróis de carros, postes de iluminação, lâmpadas dentro das casas e apartamentos, nas lojas. Havia um movimento de pessoas que iam e vinham para todos os lados. O que essas pessoas estavam fazendo? Ela cogitou hipóteses sobre todos. Viu um artista fazendo malabarismos no farol e desejou que ele conseguisse um bom salário. Observou um motorista fazer uma ultrapassagem e desejou que ele conseguisse chegar a tempo em seu compromisso. Flagrou um casal se despedir com um beijo e um abraço e desejou que o amor deles durasse para sempre.

Como era bom observar a vida do alto. Nina imaginou se essa era a mesma emoção que sentia o seu gato. Quando ela está lá embaixo, as pessoas a incomodam porque estão sempre em seu caminho, mas, de cima, ela tem por eles uma verdadeira empatia. Amar é fácil, afinal. Ela concluiu. Mas de longe.

Quando a fome gritou em seu estômago, Nina abandonou as suas conjecturas e virou-se para o gato:

- Vamos jantar?
- Miau!

Famintos, o gato e a dona deixaram a sua posição de observadores e entraram para comer.

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