Lara e o fim

julho 21, 2014


Lara descansou o livro na escrivaninha e deitou na cama para absorver as novas emoções da história que a acompanhara por uma semana. Leitora ávida e cheia de entusiasmo, um dos prazeres mais indescritíveis para a jovem era a necessidade de comprar uma nova estante e preencher os seus vazios com seus livros lidos. Ou quase lidos. Lara tinha uma maneira peculiar de se entreter com a leitura: ela jamais terminou uma história. Nunca leu um epílogo e seus olhos passam sempre longe do último ponto final.

Na escola, a professora pensava que Lara temia os finais infelizes; os colegas achavam que ela era desmiolada; Clarice, a amiga mais próxima, ainda pensa que ela tem medo de se decepcionar com o destino dos personagens. E ela quase acerta. Lara, na verdade, tem horror do fim. Não gosta de nada que termina. Quando vai ver filmes, ela aperta a tecla pause e desliga o aparelho antes da última cena dar lugar aos créditos; curiosa, mas resistente.

A mãe de Lara sempre pensou que ela fosse escrever vários livros, porque desde criança andava para todos os lados com um caderninho nas mãos, rabiscado de ideias, mas como a execução é, de certo modo, um fim, elas nunca se concretizaram. Mas Lara é feliz como leitora.

Na faculdade, a professora doutora não se conteve. “Mas, Lara, desse modo você nunca vai vivenciar a experiência de uma obra por completo”. “Assim eu crio múltiplas continuações e desdobramentos”, ela rebatia. “Vou pedir um resumo do capítulo final de um livro”, ameaçava a professora. “No último parágrafo, uso um argumento meu”. “De todo modo, o texto vai ter um fim”. “Não se eu usar reticências”. E ganhava outra discussão, que na aula, de tão frequente, era do jeito que Lara gostava: nunca tinha fim.

Depois que criou mais cenas para os personagens do romance que lera, Lara saiu da cama, pegou um bloco de anotações, releu alguns parágrafos de suas memórias, que vinha escrevendo há meses, e os completou. “O fim é a falta de coragem de seguir, o medo de ousar e a ausência de estímulo para continuar”. Sorriu satisfeita consigo e decidiu que era uma frase ótima para concluir, mas não usou ponto final. Lara não gosta de fim. 


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