Minha história

junho 24, 2013


Quero ver quem vai compreender quando as lágrimas rolarem em meu rosto, e se sentar ao meu lado pra escutar toda a minha história.
Aspiro saber quem olhará além das minhas roupas desbotadas pelo tempo e me dizer um oi ou transbordar um sorriso mesmo que seja de mentira, ou até me ajudar a levantar das sarjetas escuras onde caminho toda noite. Mas eu não mereço!
Sinto frio.
Todos olham com piedade para mim, mas me ignoram.  A geada das madrugadas é o meu cobertor, os calafrios me lembram as épocas em que as folhas de Bordo tocavam o meu rosto nos outonos passados.
Os doutores passam nas calçadas e fixam olhares enojados, mas é fácil ser como alguns deles, difícil é se tornar alguém de verdade no meio de tanto ego. Nenhum desses senhores conhece a minha vida.
Momentos que vivi, onde tinha tudo e não entendia porque existiam tantas pessoas nas ruas mendigando por restos.
Tanta coisa! Os episódios dançam em minhas lembranças.
Sinto saudade não dos banhos quentes com perfumes excêntricos, mas a falta que minha filha faz, quando me abraçava e me dava um beijo todo melado de doce e dizia: papai vem brincar comigo? E eu limpava aquele mel deixado pela inocente criança, e não olhava naqueles olhinhos tristes que deixei por sonhar...
Se eu pudesse voltar e recomeçar. Pois todos têm uma segunda chance, porém esgotei as três que tive.Estou sozinho perambulando...
Perdi tudo! Não falo dos carros, nem das casas ou de ações. Mas o que era tudo pra mim, e eu não valorizei quando pude: minha família.
Talvez eu tenha ficado pra me redimir. Mas o que me importa?
Não posso mais pegar minha filha no colo, ou dá-la um beijo de boa noite: e dizer filha eu te amo. Quer brincar? E  falar à minha esposa como ela é bonita. E quanto seu perfume é doce.
Já é tarde. Nada importa mais.
Estou aqui, acho que não mereço a moeda que cai na caneca que deixo ao meu lado, pra comprar um pão francês amanhecido na padaria da esquina e saciar minha fome.
Hoje entendo o que é viver em função de sobras, se essas pessoas me ouvissem queria falar para elas: Não percam  tempo! Acordem para o que realmente é digno de apreço nessa vida.
Não quero compaixão, pois estou onde deveria.
Se todos soubessem a minha história talvez existissem  mais lares e menos pessoas solitárias, assim como eu...
Mas o que importa?
Já é tarde...

Você também pode gostar

1 Comentários

  1. Oie!
    Que texto bonito e triste, chegou a dar aperto no peito!
    Bjos

    ResponderExcluir

Like Us on Facebook

Youtube