Fuga

maio 22, 2013


Era um aluno como os outros, tinha sonhos como qualquer um de sua classe, embora uns estivessem lá por pura distração.
Não tinha lugar marcado, chegava no horário para ser exemplar; faltas tinha algumas... Todas suas provas eram gabaritadas em quaisquer das matérias.
Porém ninguém entendia a tristeza escondida em seu rosto, atrás de seus olhos azuis existiam tons acinzentados, cercado de fatos decrescentes pela trajetória então vivida. Não se enxergava nada além de um menino que queria ser alguém pelo simples fato de estar ali.
Talvez o silêncio durante as aulas fizesse parte de suas façanhas de tudo que passara e absorvia em seu mundo cotidiano.
Quem achava que o compreendia esquecia que não se pode compreender quando não há entendimento, compreender algo requer consciência.
Uma vez fez um texto no qual contava sobre o dia de um caçador, quando este não obtivera êxito em sua caçada; redação na qual lhe rendeu bons resultados e uma medalha de escritor juvenil.
Todos dariam tudo pra estar naquele lugar, mas ele tinha um jeito diferente de ver as coisas.
Sexta-feira era dia de festa, o pessoal saía mais cedo pra ir ao barzinho da esquina comer batatas fritas e tomar suco de cupuaçu, mas ele nunca ia, se excluía do restante da turma como se seu mundo fosse apenas o que ele queria que fosse. Aliás, julgava que a vida era passageira pra perder tempo com coisas fúteis. Às vezes até o professor não entendia suas palavras, era culto demais pra pouca expectativa que tinha.
É triste pensar que o ser humano pode ter tudo e não querer nada, e ser vítima de suas próprias frustações. Ele tivera muito tempo pra reconhecer que o mundo é maior que vitimar-se por coisas que são inalcançáveis, pois existem teimosias que não valem o tempo gasto, pois o segundo que passou não volta. 
Mais triste ainda é ser lembrado pelas tristezas que transmitia, pela forma que lidava com as situações mais infantis que aparecera. Mas é tarde demais pra ficar lamentando ou tentar descobrir o que acontecera.
Falta de amigos? Falta de carinho? Falta de amor? Ou de fé? É difícil responder, pois não podemos entrar na mente das pessoas ou fazer telepatia pra adivinhar o que pode ser feito.
Um dia ele não voltou, outro também não, e assim os dias se passaram... E nada.
Eu sei... Ele não volta mais...
É tanta hipocrisia achar que um dia ele apareça por aqui com seu caderno azul e seu tênis amarelado... Dizendo cabisbaixo: com licença professor, e ir sentar-se ao fundo, onde ficaria até o último sinal.
Eu sei, apenas sei, pois no seu texto dizia mais ou menos assim:
Não sei, já estou entediado nas tentativas por algo, o capim está tão alto! Não vejo o alvo... Vou pra bem longe, talvez eu me aposente e descanse.
Meus pés estão calejados de correr e não acredito que todos os dias poderão ser novos dias. Já é tarde e  tenho que me mudar...
Está frio, anoitece , tenho medo... Não vejo nada. .. Muito escuro... Acabou-se...
Tudo mudou depois do sumiço, inclusive a racionalidade de pensar daqueles que achavam que não valia à pena lutar com o inimigo interior mantido em cada um. Na verdade eles ainda não sabem o real valor das coisas, mas aprenderem a valorizar a realidade.
É... Talvez estejam buscando o que já perderam há muito tempo...


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