a dança da morte

outubro 31, 2012


"A noite eu me deito e que o Senhor me proteja do mal que me cerca. O mal que está lá fora rondando como sombra. Esperando por um alma boa para romper e carregar para os confins do mundo escuro." Essa foi a oração que minha avó me ensinou quando era pequena. Ainda consigo ouvi-la dizendo que toda a noite a morte rondava pelas ruas e florestas procurando uma alma para levar para algum lugar desconhecido. Ela se arrepiava cada vez que falava isso. Mas nunca acreditei nessa história.

Estava acordada quando eu ouvi. Uma música vinha ao longe num ritmo lento. Não conseguia ouvir o que cantavam, se é que cantavam. Me levantei e abri a janela. Agora podia ouvir com clareza. Era um som baixo, como vindo de um quarto fechado. Mas a música vinha da floresta que cercava a casa. Como que hipnotizada por aquela melodia, sai do quarto, desci as escadas e fui para fora. Parecia que algo me atraia para o local onde estavam tocando. Ritmos lentos que infiltravam em mim. Senti uma necessidade incontrolável de ir até lá. Meus pés descalços me levaram, sem me dar conta, até uma clareira no meio da floresta e lá permaneci. Agora a música havia se tornado mais intensa e figuras estranhas e encapuzadas dançavam num ritmo frenético dentro de uma roda de fogo. Uma delas veio até mim. "Estávamos te esperando" e foi assim que eu o vi de verdade. Um rosto branco e cadavérico e olhos sem alma. Corpos mortos sem vida dançando a valsa da morte. Eles me levaram ate o centro e a música tomou conta do meu corpo. Vi minha alma dançando e me dizendo que tudo ficaria bem. Não precisava ter medo e logo aquilo acabaria e faria parte daquele ritual eternamente. Me senti presa em uma bolha. A música se infiltrava em mim e comecei a dançar.

Não sabia há quanto tempo estava ali, mas então eu acordei. Percebi onde estava e com quem estava. Senti um terror intenso. Meus músculos ficaram rígidos e parei de dançar enquanto os outros continuavam. Seus rostos não demonstravam sentimento algum. Apenas olhares vazios naqueles rostos brancos. Foi aí que eu corri. Corri como jamais havia corrido em toda a minha vida e não olhei para trás, não ousava olhar pra trás. Cheguei em casa no alvorecer e a musica havia parado. A única coisa que ouvi foi como um leve suspiro, algo como "dança da morte".

"A noite eu me deito e que o Senhor me proteja do mal que me cerca. O mal que está lá fora rondando como sombra. Esperando por um alma boa para romper e carregar para os confins do mundo escuro."




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3 Comentários

  1. Oi Fernanda!

    Adorei seu texto, está incrível! Também me lembra algo, porém não lembro-me o que, rsrs!

    Beijos

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  2. Medo..rsrs

    Consegue ser assustador e bonito, gostei.

    Thais Vianna
    @dathais

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